Agora que as olimpíadas estão logo na esquina, o papo quente nada tem a ver com esporte, e sim política e religião. Ou seja, vamos pisar em ovos (centenários). Os protestos no Tibete e a violência associada a eles têm ganhado bastante destaque na mídia internacional (leia-se: fora da China) e sequer mencionar isso por aqui seria um ato de completa negação.
O Tibete na verdade verdadeira, teve muito pouco tempo como um estado plenamente independente, a região já foi capital de um império e depois trocou de mãos inúmeras vezes. O início da ocupação do Tibete pela China se deu antes mesmo da formação do governo comunista; durante os últimos suspiros da dinastia Qing.
Quando a República da China foi estabelecida, as tropas imperiais no território tibetano picaram a mula, abrindo caminho para a volta do 13º Dalai Lama. Até 1950 as relações entre os dois países eram complexas, com indianos e britânicos sempre metendo o bedelho e diferentes tratados sendo elaborados e nenhum tendo reconhecimento pleno por quaisquer das partes.
Para encurtar a história, a raiz do conflito atual está na ocupação plena do Tibete pelo Exército de Libertação Chinês em 1950 (que curiosamente chamava a missão de “libertar o Tibete”), durante a presença do décimo-terceiro, e atual, Dalai Lama. O pais estava auto-suficiente apenas desde 1913. A ocupação do território foi lenta, com o exército parando e tentando conquistar os corações dos tibetanos ensinando preceitos socialistas e dando dinheiro, e enviando ex-prisioneiros ao Dalai Lama para efetivar a libertação/rendição do Tibete.
O tratamento humanitário provido pelo ELC fez com que a ONU não se preocupasse com a questão. Nas palavras do próprio Dalai Lama:
“Os chineses foram muito disciplinados. Eles eram como os soldados britânicos (em 1904). Até melhores que os britânicos, porque eles distribuiam dinheiro (a aldeões e líderes locais). Assim eles cuidadosamente planejaram.”
Thomas Laird, The Story of Tibet: Conversations with the Dalai Lama, pp. 301-307
Pressionado, o governo tibetano acabou assinando um acordo que integrava o Tibete plenamente à República Popular da China em 1951. É preciso entender que o país tinha uma estrutura sócio-política muito particular, feudal eu diria, em que a maior parte da terra pertencia à monastérios e aristocratas, e presos a ela havia uma sub-classe de servos. O argumento do governo chinês era que essa era uma condição inaceitável que impedia o desenvolvimento da sociedade tibetana. Quando da ocupação pelo ELC houve promessas da China em manter os direitos dos aristocratas, mas na prática apenas a região de Lhasa teve esse privilégio. As outras províncias foram tratadas como qualquer outro território chinês, ou seja, redistribuição de terra na marra. Foi então que protestos começaram a ocorrer e a partir daí casos de violência, abusos, assassinatos e exílios (incluindo do próprio Dalai Lama, que fugiu para a Índia).
Mais da metade do território histórico do Tibete foi incorporado à outras províncias chinesas. O restante – que inclui Lhasa – é chamado pelo governo Chinês de “Região Autônoma do Tibete” e iguala essa região menor ao Tibete original.
Realisticamente falando, um retorno ao esquema feudal é impossível. O Dalai Lama disse em uma entrevista que “estamos dispostos a ser parte da República Popular Chinesa, para que ela governe e garanta a preservação de nossa cultura, espiritualidade e meio-ambiente Tibetanos.” (Spencer, Richard. “Tibet ready to sacrifice sovereignty, says leader“, The Daily Telegraph, 2005-03-15.), uma declaração não necessariamente popular entre os tibetanos. Da mesma maneira que um retorno ao Maoismo (que conquistou o Tibete) é impossível.
O Dalai Lama chama o controle chinês de Massacre Cultural pois, apesar dos bilhões gastos em educação e infra-estrutura na região, a China também reprimiu a voz dos tibetanos e populou o Tibete com chineses de outras etnias, que curiosamente costumam se beneficiar mais das ações do governo chinês do que os próprios tibetanos. O drama do país é que seu povo se tornou estrangeiro em sua própria terra. Além da indignação gerada pela redistribuição de terra e outras reformas sociais, a China também tenta minar a autoridade religiosa do Governo Tibetano Exilado: Em 1989 o 10º Panchen Lama morreu inesperadamente, e mais inesperadamente ainda o 11º, então uma criança, desapareceu, seu paradeiro até hoje é desconhecido.
O núcleo da questão está na falta de liberdade individual na China como um todo. O Tibete está em destaque e é uma forma mais rápida de perceber isso (para aqueles que não eram vivos na época do Massacre na Praça da Paz Celestial.) Na China você é livre para ter, comer e trabalhar, não para falar.
Sendo um país de filosofia (teoricamente) comunista, a questão religiosa é delicada. Mas liberdade de expressão e de religião caminham juntas, enquanto a China não afrouxar o controle à informação dentro de seu território, o resto do mundo continuará metendo a boca.
A tocha com certeza passará pelo Tibete, nem que seja escoltada por fuzis. Mas essa imagem, nos jogos da confraternização, não pegará bem para a China, que já sofre muitas críticas não apenas pela falta de liberdade de expressão, mas também pela violência como tem tratado os protestos (OK, um reflexo) e também pelo crescimento desenfreado de sua industria, que causa danos enormes ao meio-ambiente e está criando um sério problema de distribuição de renda.
Desagregar o Tibete da China não é uma opção para o governo, não aos olhos deles. Isoladamente perder o território não seria um grande dano, mas a reação em cadeia custaria caro culturalmente, politicamente, econômicamente e militarmente. Poderia culminar na morte do Dragão. Uma solução realista para as Olimpíadas seria o governo chinês, em conjunto com oDalai Lama, estabelecer um tipo de meio-termo com o povo tibetano e clamar por um “armistício” nos protestos e discutir a questão após os jogos.

Aprenda mais sobre o Tibete e a China na Wikipedia (em inglês):
Tibet
Tibet Autonomous Region
14º Dalai Lama
Panchen Lama